quinta-feira, 10 de maio de 2007

Enterrem meu Coração na Curva do Rio

é o nome de um livro que retrata o extermínio sistemático dos indíos americanos durante os séculos 18 e 19. Escrito por Dee Brown, foi lançado em 1970, quando ainda eram muito populares os clones de John Wayne e os Western Spaggettis. Ou seja, de um lado soldados mocinhos protegendos donzelas loirinhas inocentes e do outro, os demoníacos pele-vermelha vindo aos milhares com arcos e flechas e caindo sobre os tiros das armas de repetição.

Por causa disso, Dee Brown fez uma escolha deliberada para o livro: mostrar apenas o ponto de vista do índio, como se o texto tivesse sido escrito por um. Então, ao longo do livro você encontra as expressões indías: soldado era casaco azul (em alusão ao seu uniforme), o tempo era contado atraves das luas e os generais eram citados por seus apelidos (o famoso general Custer, por exemplo, era chamado Traseiro Duro).

O livro conta a história de famosos, como Touro Sentado (que teoricamente matou Custer) e Cavalo Doido (que é o dono do tal coração teoricamente enterrado), e outros menos famosos como Nuvem Vermelha, Faca Embotada, Cochise e Dez Ursos. O livro fez um sucesso tremendo e abriu caminho para uma série de livros e filmes sobre a cultura indígena, como por exemplo, Dança com Lobos.

E de fato, a destruição sistemática dos povos indígenas descrita no livro é tocante. Suas terras foram confiscadas e eles mandados para reservas em locais onde praticamente nada crescia e não havia animais para caçar. E os índios que se rebelavam tinham apenas armas de caça velhas e arcos e flechas para enfrentar o poderoso exército americano equipado com modernas armas de repetição e em números muito maiores.

Qualquer semelhança com o Iraque é mera certeza histórica. Aliás, é triste pensar como são similares as histórias desses índios, com a dos palestinos e iraquianos. Como os massacres narrados lembram em muito as ocorridas na Bósnia, Chechênia e África - todas ocorridas após o lançamento desse livro. Quem não conhece a história está fadado a repetí-la. E os americanos podem não ser os únicos, mas são bons nisso.

Apesar disso, o que torna o livro poderoso também é o que acaba com ele. Talvez, se trinta e sete anos atrás essa parcialidade fosse necessária, hoje ela acaba com a credibilidade do texto. Ao ignorar as histórias e discursos dos índios que odiavam os americanos, dos massacres e crimes cometidos pelos pele-vermelhas e ao tentar justificar as ações más deles como sendo resposta às do homem branco, Dee Brown cria um universo perigoso, de um povo que realmente era em sua maioria pacífico.

É perfeitamente compreensível que ele não tinha escolha naquela época pois se colocasse o lado mau do índio só justificaria o que a população assistia nos filmes, mas a leitura do livro hoje começa interessante até a sua metade e se torna enfadonha até o final, porque ele não foge da fórmula exôdo-rebeldia-massacre, para contar as histórias dos vários povos indígenas.
E ao final como se percebendo o círculo vicioso, ainda tenta aumentar a carga dramática das histórias (até porque as boas histórias ficaram na primeira metade do livro) aumentando os floreios, tentando dramatizar coisas bestas como a morte de Cavalo Doido (que morreu dentro de um forte, cujo coração enterrado é apenas uma lenda e ele nunca disse a tal frase) e terminando com um capítulo absolutamente anti-climático.

Enfim, um livro importante, mas datado.

A edição da L&PM é simples e bonita. As ilustrações ao longo do livro são muito genéricas, faz falta um pouco mais de fotos da época, para situar o leitor no período, mas nada que desmereça essa iniciativa de lançar livros clássicos em banca de jornal a um precinho bem joinha. Um grande acerto deles.

Enterrem meu Coração na Curva do Rio
(Bury my Heart at Wounded Knee)
Coleção L&PM Pocket, vol. 338
Autor: Dee Brown
Ano: 1970
Páginas: 396

Lendo agora: Discurso do Método (Descartes)

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